PREFÁCIO
“Sobre
o Livro "Penas da alma para a
mão"
“É um livro cheio de metáforas, onde jorra a
força feminina aliada à vida das palavras. O elemento líquido, sob a forma de
mar e de rio, invade muitos poemas e penetra nas palavras, fornecendo-lhe a
seiva do amor e transformando o acto de escrita em êxtase. A marca feminina que
caracteriza esta obra, através de alguns títulos, versos e mesmo pelas várias
referências ao corpo e à vida da mulher, impõe-se como a verdadeira imagem do
livro; aliás o título é todo ele no feminino. No entanto, há um poema que é um
louvor à poesia e ao poeta, sem a reivindicação de sexo, o que reforça o gosto
e a sua aceitação do/ no feminino, embora o eu confidencie que, por vezes, há
um desajustamento com o tu e com os outros. O encarceramento da palavra até à
sua libertação, traduzindo metaforicamente o percurso psíquico e mental do
sujeito, é a trave-mestra desta poesia e o guião que apoia o leitor a
interpretar as penas que a pena escreveu através da mão.”
A
Poesia, para além de um acto ontológico e de um processo de auto gnose, é
essencialmente, um acto de coragem e de descompressão do espírito.
Escrever
é, antes de mais, preencher as páginas vazias com o vazio da nossa alma, para a
encher, deixar sair as penas da alma para a mão, através da escrita, é traduzir
por palavras o que a voz muitas vezes silencia, são todos os pensamentos
adormecidos nos confins secretos da mente iluminada pelo poder criador das
palavras, à luz reveladora de uma espiritualidade emotiva, ruminada no mais
profundo segredo da solidão. Ora, quem se dedica a esta difícil e sedutora
tarefa de amanhar as tais palavras humedecidas, escorrendo sentidas da alma
para a mão, é alguém que se distancia dos outros, pelo pensamento, mas conserva
uma inabalável vontade de comunicar, dando-se pela escrita através da palavra.
Este
livro “PENAS DA ALMA PARA A MÃO”, é o exemplo do mistério da Poesia e da
vontade de revelação desse ocultismo pela desmistificação das palavras…nem
sempre transparentes pela sombra que as envolve, tal a sombra que as
“enformou”.
Apostando
na essência e na transcendência, as penas da alma acabam por se comprometer num
concluiu tal que servindo-se da mão, vão adensar o misticismo da obra, em vez
de desdramatizar o significado da existência. A mão à procura, para além de um
acto desesperado de encontrar alguém, transforma-se em revolta, desventura e
cepticismo, para depois de escrever tudo o que lhe vai na alma, dar lugar à
esperança e ao renascer, que só as palavras saídas do pensamento transcendente
são capazes de renovar o desespero e o vazio gerado pela solidão, pela ausência
de transparência dos sentidos, deixando contudo, surgir camuflada nas
entrelinhas, uma força a indicar caminho e a mostrar que mais do que “sombra”,
a alma é luz portadora de mensagens que só o poeta é capaz de ver e
interpretar, dando-nos a conhecer essa via iniciática e sublime, em pedaços de
memórias que cada poeta ao alinhavar as suas palavras, tenta recolher e
reconstituir o seu Eu, usurpado da sua verdadeira identidade na sua forma mais
simples e curta, acabando por ser um pronome com uma enorme responsabilidade
nos nomes, dos outros e de si mesmo.
Portador
de uma herança temporal e cognitiva, cada ser inscreve-se no Tempo Alma,
desafiando-o nas várias direcções que as imagens vão pressionando e impelindo
para a escrita e assim sendo, a palavra transforma-se numa arma de combate e
num filtro de depuração de todas as penas sentenciadas pelo espírito no
silêncio dos pensamentos. As impressões da alma resultam dessa vontade e de um
querer que as lucubrações do espírito permitiram gravar…e o resto é produto da
poesia.
Trata-se
de uma espécie de enigma que se vai desfazendo pelo punho da mão e a alma acaba
por suportar essa psicografia como auto-defesa da dor que as penas infligem no
todo, pelos sentimentos silenciados por mágoas pessoais e intransmissíveis,
dessa alma que não se quer calar, de todo esse inferno de sentidos, que quer
parecer levar à morte.
Pela
Poesia se ensina a viver e a procurar outras formas de vida…se não passássemos
da busca das palavras, libertando as penas da alma pela mão, dando colo à
escrita nestas páginas poéticas, certamente ficaríamos encarcerados num
labirinto KafKiano, à espera…da morte. Mas a vida é o melhor dom de Deus!
“Penas
Da Alma Para A Mão”…a interface do mistério da revelação.
Ana
Bárbara de Santo António
PREFÁCIO..............................................................................
Escrever
é um acto de procura..................
.............. Este conjunto de poemas aponta para o percurso existente
entre a organização das imagens que povoam a mente do sujeito e a
decisão da escrita.
A maior parte dos versos são testemunho dessa turbulência psíquica e da
vontade expressa pelo sujeito em transformar essas imagens em palavras
poéticas; assim, os poemas são partos da alma dados à luz através da
mão. O título “Penas da Alma para a Mão” aponta, portanto, o caminho
percorrido até ao nascimento da palavra; são poemas tecidos de dores
“penas”, mas também expressão das ideias, fantasia, solidão e do amor
vividos no eixo da temporalidade, num nicho de procura e de luz.
De acordo com a alma feminina, a poesia é dotada de uma sensibilidade
misteriosa, que remete para a expressão/contemplação do corpo e
portadora de um espírito inquieto – balançando entre o cepticismo e a
verdade, a dor e a alegria – o que revela que “o acto de dar à luz” nem
sempre tenha sido fácil, apesar do encantamento subsequente. É um livro
cheio de metáforas, onde jorra a força feminina aliada à vida das
palavras. O elemento líquido, sob a forma de mar e de rio, invade muitos
poemas e penetra nas palavras, fornecendo-lhe a seiva do amor e
transformando o acto de escrita em êxtase. A marca feminina que
caracteriza esta obra, através de alguns títulos, versos e mesmo pelas
várias referências ao corpo e à vida da mulher, impõe-se como a
verdadeira imagem do livro; aliás o título é todo ele no feminino. No
entanto, há um poema que é um louvor à poesia e ao poeta, sem a
reivindicação de sexo, o que reforça o gosto e a sua aceitação do/ no
feminino, embora o eu confidencie que, por vezes, há um desajustamento
com o tu e com os outros. O encarceramento da palavra até à sua
libertação, traduzindo metaforicamente o percurso psíquico e mental do
sujeito, é a trave-mestra desta poesia e o guião que apoia o leitor a
interpretar as penas que a pena escreveu através da mão. O fechamento e a
concentração de todas as dores e perplexidades no eu tornam o sujeito
mais vulnerável e a assumir a poesia como uma revelação das forças que
recaem sobre si, dotando a poesia de grande intimismo e simultaneamente
de mistério. Apercebem-se momentos de luta interior, de crença e
descrença, uma espécie de batalha entre Deus e o Diabo visível em
“Morada aberta “, uma vontade de expurgar o mal proveniente do inferno
dos sentidos para recuperar a paz e restabelecer a lucidez das palavras.
Há versos de tal melancolia que nos transportam para além da morte, uma
espécie de saudade metafísica e uma necessidade de renascer, pois o
sujeito identifica-se como uma “sombra". Versos que afirmam uma vontade
de ser outro; de ser diferente “do que poderia ter sido”. Mas esta
saudade está também expressa em lugares concretos ligados a um tempo que
já foi – o da infância – e ao Porto. Esse tempo de menina que ficou
para sempre gravado...
Não se pode fechar este livro sem olhar as imagens que o ilustram e
seleccionadas pela própria autora, pois elas resultam de um entrosamento
perfeito entre a mensagem dos poemas e a imagem e que a leitura inter
artística ajuda a compreender “tela da alma”. No fundo, o livro é essa
vontade de pintar a vida que, parafraseando o sujeito, ficou a preto e
branco. Os versos são esboços e a poesia ainda deixa escorrer algum
sangue.
Quem conhece a Ana Conceição Bernardo não consegue ler somente as
palavras, ela está nas palavras, o que causa algum embaraço a quem
procura distanciar-se. O pseudónimo Ana Bárbara de Santo António resulta
da sua crença nos poderes dos santos, bem visível ao longo da obra.
Santa Bárbara como protectora das tempestades e aflições e Santo António
o mestre da palavra, o pregador, o homem do sermão aos peixes, aquele
que falou para as águas de um rio.
Agora, falta a leitura silenciosa destes versos para ajudar a
compreender o que intencionalmente ficou por dizer; para descobrir o que
lhe pertence e está ao alcance da sua mão.
Curiosamente, tendo o ser humano duas mãos, é a mão no feminino e no
singular que produz a palavra já contaminada pela vontade do sujeito; a
mão que ajuda a Ser. E quantos poemas serão “uma forma inventada/de um
sofrimento sem nome?” .................
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Júlia
Serra.........................................
(Professora do Ensino Secundário e Critica Literária)
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