O CEGO E A NATUREZA MORTA (*) Ely Vieitez Lisboa



Vive-se aprendendo. Às vezes é preciso muita humildade e mais que de repente, de mestre torna-se aluno. Explico. Recebi o livro mais recente de Maria Carpi, a grande poetisa brasileira, O Cego e a Natureza Morta, Edições Ardotempo, Porto Alegre, RS, 2016. Na minha audácia, conhecedora de várias obras suas, pensei em ler e comentar o livro. Quando comecei a leitura, abismei-me. Que linguagem era aquela?! Que metáforas arrojadas surgiam aos meus olhos, como enigmas?
Li o Prólogo várias vezes. Luiz- Olyntho Telles da Silva, escritor, conferencista famoso, psicanalista, espeleólogo das abissais cavernas da mente humana, não escreveu um simples prefácio, mas deu uma aula sábia, erudita, sobre a riqueza do livro de Maria Carpi. 
Sentei-me na primeira fila da classe, aluna atenta, fui lendo a grande obra da Poeta, guiada pelo Mestre, com provas e citações elucidativas, com uma capacidade única de pinçar nos textos, versos e poemas essenciais, em uma rica e minuciosa interpretação. O próprio título do Prólogo é um verso de Maria Carpi, retirado do poema 20, Canto III: Ausência Ardente e a Fala Feminina. Citando: “A Santa ceia aos poucos vai / esmaecendo as cores e os rostos. / Solar_natura abruma_ sobre o mantel” (pág. 118; o grifo é nosso). Os versos finais são plenos de religiosidade, uma alusão bíblica que canta a ausência do Amado: “Quem será que vai molhar / o pão no mesmo prato de luz / para apagá-la no martírio? / Seu nome: aquele que ela amava”. Seriam os versos alusão às várias teorias apócrifas e heréticas, que tentam explicar as figuras do quadro famoso da Santa Ceia?
E a aula do mestre Luiz-Olyntho continua trazendo luz para que o leitor não se perca diante do tesouro único; ele segue analisando os poemas, colocando após os citados versos, subtítulos expressivos, em italiano, na grande sinfonia de Maria Carpi: Solar natura abruma / Com brio; Animato / Agitato / Com amore / Affettuoso e Vivace assai. Após cada indicação da “partitura”, ele comprova os subtítulos com preciosas citações carpianas. 
Pedagogicamente perfeito, depois da citação do verso-chave do poema 20, Canto III, o primeiro movimento, o mestre avisa: Mas comecemos pelo início. Enigmático, pergunta assim: “Quem via mais? / Antígona que via por Édipo / ou Édipo que, não vendo / via o que ela via?”, epígrafe do livro (pág. 27), que muito explica, assim como outra epígrafe, do Canto I: As Brasas da Escuridão (pág. 29): “O rei Édipo tem talvez um olho a mais” (Hölderlin).
Também o Canto 18, da página 50, é um poema que muito explicita o tema central do livro; por essa razão, ele é colocado, em realce, na contracapa da obra. Enfim, para começar a entender toda a profundidade dos poemas nesse livro de Maria Carpi, partamos de uma premissa: os poetas são antenas especiais que captam os complexos mistérios do mundo e nos dão lições de sabedoria e de sensibilidade. Nós, cegos como Édipo, necessitamos de uma Antígona que nos guie. 
Rodeados de tanta complexidade, só vemos com os olhos, enquanto a visão do cego é mais rica, porque ele vê com todos os outros sentidos. Como podemos captar tantas riquezas esconsas, da vida, do amor, dos sentimentos mais profundos, quando temos apenas os olhos da superfície? “No cego a luz descansa”. Só ele pode “Entrar na noite com olhos acesos. As brasas da escuridão”. Nós não vemos o mundo, nos seus mistérios, só podemos fazê-lo pelos olhos de Antígona / Maria Carpi. Somos Édipos, que não vendo, vemos o que a Poeta vê. 
Após essas descobertas iniciais, sinto-me pronta para aprofundar um pouco mais no rico mundo de O Cego e a Natureza Morta, de Maria Carpi. O desafio é grande, mas é um repto atraente e enriquecedor.


Ely Vieitez Lisboa



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