INSIGHTS & ACHADOS (*) Ely Vieitez Lisboa


O passado é uma ilha longínqua (ou um arquipélago?) que vem boiando na memória e, às vezes, lança âncora. São pequenos episódios, fatos pitorescos, lembranças.
Quando se vê um quadro, uma pintura, muito de perto, a visão borra, falseia a realidade, desvirtua, adulterando a tela. A manhã fria, a brisa doce, o céu de brigadeiro, a vida azeitada com sua rotina prenhe de afazeres essenciais, outros apenas acessórios. Por que os fatos antigos vieram pousar na memória, como borboletas brancas, aparentemente surgidas do nada?
Meu aluno da quinta série do Curso Fundamental, miúdo, mirradinho, não aparentava mais de dez anos. Olhou-me sério e perguntou: Por que coisas ruins acontecem? Eu o fitei preocupada, diante da possível resposta tão complexa. Antes que eu ensaiasse uma hipótese, ele disse: Não será porque a gente gosta só da banda madura da fruta? Abismada, questionei se ele entendia a beleza da metáfora que criara.
Meu pequeno discípulo ficou atarantado com o termo metáfora; tentei explicar-lhe, mas todo o mistério permaneceu. Anos mais tarde, lembrando-me do episódio, fiz um poema, que acabou sendo premiado em Concurso Literário: “O homem, incauto, inocência, / procura sempre viver / no lado maduro do fruto, / e no verde, no ácido acre / morrem suas esperanças e sonhos, / apodrecidos, às vezes, na espera fatal. / Planta a árvore, nega o fruto? / Que é a vida se não houvera / ao menos uma só vez / rica seara, doirado trigo / que enfeita o vento carregado de azul? /O terreno da esperança / é demasiado fértil. / Há risos de bonança / em plena tempestade. / Diante da sempre frugal colheita, / o homem, animal que sonha, / não aprende, não aceita o bruto / da realidade cansada de repetir. / Ele ama, inteiro, persistente, / o lado maduro do fruto.” 
Durante os cinquenta e quatro anos que lecionei literatura, língua portuguesa e redação, encontrei tesouros valiosos produzidos por alguns alunos. A boa orientação pode ser a vara mágica que desperta a sensibilidade do adolescente ou do jovem. Genialidade e talento são pedras preciosas. É só garimpar. Hoje são raros os exemplos mostrados na mídia televisiva. Será mais atraente focalizar o negativo, a violência, brigas, agressões entre alunos, nas escolas? É algo para se pensar.

Ely Vieitez Lisboa


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