Aquém de réquiem- Fernando de Oliveira Cláudio

 A vida é como um jardim. Uma flor que seca aos poucos e morre no final. Um jardim de cores vivas e mortas. Um paraíso incerto, pouco sabido. Um repouso duvidoso que atinge o ápice da vida: a morte.
A angústia do momento concede brilho onde a escuridão perpetua. Um momento sublime, glorioso, nobre. O caminhar lento das horas tristes e o gosto amargo entalado na garganta reluz um sorriso amarelo vagando perplexo, atônito; e o silêncio do ambiente entorpecendo a alma. É suave o cheiro que se instala das flores astrais.
A solidão e o silêncio, amantes inveterados dispersos na vida, auferindo corações de razões, em ato e cena de um drama final, contemporâneo em toda a história, objeto perdido no universo, ditado pelo relógio sem ponteiros e que está suspenso no tempo,no fim de uma peça divinamente teatral.
Um termo desconhecido, pouco explorado. Aquarela monocromática que a instância do acaso desenha, desdenhando o esmero da ocasião. Sutil, leviano, torpe, ardil, insensato, amargo. A esfera desse cosmo é finita aos corações gladiados, desfacelados no tempo e espaço; heróis entre sóis trilhando caminhos ascéticos, cavalgando passos mágicos em uma floresta escura, entrevada de flores mortas e galhos secos. Um quadro soturno, de pincéis escusos em moldura de ouro, prata e cobre, arte inconteste da vida reproduzida.
Ousar além é óbvio. Cruzar a fronteira do além é que difere este bordão, entrave único do cordão umbilical altivo. Romper o elo é a descoberta prática da teoria realista.
Malabares da órbita psíquica envoltos em uma neblina mórbida. Sordidez voraz que ninguém explica. Natural dos seres viventes o confronto direto entre vida e morte.
O ser, demasiadamente pequeno humano, desaparece na estratosfera tão pequena comparada ao vasto mundo de “Raimundo” que ficou sem poema e solução. Eclipses ocultos não. É como regurgitar Maiakowski“...brilhar como o sol”. Este sol, ah sol! O livro dos dias é como tempestade, glória da bonança.
O ar pesado, o clima mofado, o cheiro forte de morte é passagem para outra estação, vanguarda da realeza, sina desconhecida, oculta ao conhecimento do homem, seguindo um ritual prescrito conforme testamento cultural. Não se compara, não presta e não serve ao ser, machadiamente falando, assinalando idéias Assis.
É momento sublime e único. Clarão suntuoso e abundante, eterno. A cerimônia lúgubre esbaldada na incerteza do lugar. Razão que não se sabe, até que se prove o gosto amargo e a sensação. Ausência de batimentos cardíacos, a pele fria, os lábios gelados, um frasco sem essência. Podre, fétido, decomposto. O congestionamento do transe não é problema algum para a glória do momento. Ressalva feita à precisão do tempo.
As quimeras da vaidade em outra estação perdem o seu valor. Sintonia fina coletiva, ocaso eqüitativo. A carne, sem espírito, transporta o núcleo permanecendo a parte podre, fétida, cheirando mal à espera dos bichos.
Triste fronteira do passado, futuro presente, destino exato, parada certa. O medo, parte dominante do ostracismo celeste é fator apreensivo e condicionante, que torna o mar das várias variáveis retroativo, e deve ser extirpado para que a rota navegada não afogue amanhã à vontade do náufrago de viver o hoje.
No caminho encontra-se passagem. É preciso, de prazo válido. Um sofrimento pautado na demora do encontro, lento. Mares nunca antes navegados. Cartesianismo infinito e coberto de mistérios. Premissa dos novos dias. Conquistada pelo tempo e só prestigiada quando prescrita a vida. Teoria sem praticidade, curiosidade que não é pragmática. Deve-se ir além do que os olhos podem ver e compreender. Desdobrando-se todo lânguido durante o curso da vida,onde se esbalda todo afoito,ausente do fôlego, suspira pela vida que foi vivida e sofrida. Muito além de alguém, só aquém de réquiem, a marca que um dia foi auferida nunca poderá ser subtraída.









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